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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Moscou

Bom, estou de volta da minha viagem à Rússia, depois de 10 horas de atraso no voo Istambul - Islamabade por causa da cerração na capital do Paquistão. A viagem foi muito legal, apesar do frio, que realmente dificulta o turismo. Com a temperatura variando entre -5C e -8C fica muito dificil tirar fotos sem luva, por exemplo. Outro problema é a neve: bonitinha, mas ordinária. Quando chove a cidade fica uma lamaçal. Nas calçadas, a neve vai se transformando em gelo e andar na rua se torna um perigo constante. Confesso que derrapei muitas vezes, mas pelo menos eu não era única, até mesmo os russsos tinham dificuldade. O jeito era caminhar lentamente e torcer para não levar um tombo no meio da rua.

Moscou é muito legal, com opções culturais incríveis. Eu fiquei hospedada a uns 15 minutos a pé da Praça Vermelha, perto, portanto, do centro histórico. Fiquei um pouco decepcionada com a praça por dois motivos: o Mausoléu do Lenin estava fechado para reformas e coberto com um tapume branco e tinha uma pista de patinação no gelo que impedia a vizualização completa do lugar. A Catedral de São Basílio, no entanto, é lindíssima. O interior é muito interessante, com pequenas capelas, mas não era possível tirar foto. Por alguma razão, lá dentro estava mais frio que na rua.



Dentro do complexo do Kremlin (que significa fortaleza em russo), o ponto alto foi a visitação ao Palácio do Arsenal, que contém armas históricas, relíquias do czares, ovos Fabergé, carruagens imperiais, etc... Lá também não foi possível tirar foto.

A Torre Spasskaya na Praça Vermelha

Túmulo do Soldado Desconhecido (muros do Kremlin)
Destaque também para as estações de metrô, que foram construídas em 1935 e até hoje continuam decoradas com temas soviéticos.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Rumo à Rússia

Estou de malas prontas para a Rússia, onde vou visitar Moscou e São Petersburgo. A boa notícia é que a temperatura subiu nos últimos dias: passou de 22 negativos para zero. Praticamente verão para os russos!

Com essa viagem, vou fechar com chave de ouro um ano incrível, em que aceitei essa missão complexa que é viver no Paquistão. Tenho aprendido a cada dia, não só no trabalho, mas na rotina da casa, nos restaurantes, nos espaços mais simples. O Natal, por exemplo, me mostrou que, embora a violência sectária contra as minorias religiosas (xiitas e cristãos em especial) seja uma dura realidade do país, com atentados regulares contra essas populações, os muçulmanos com quem convivo diariamente não apenas respeitam a data como mostraram-se muito interessados na comemoração. Ganhei presente até dos guardinhas aqui de casa, com um bilhetinho de "Merry Christmas".

Uma coisa que aprendi também nesses sete meses aqui é não subestimar as diferanças culturais. O fato é que as diferenças entre o Paquistão (e outros países asiáticos) e o mundo ocidental são brutais, são importantes e não são apenas "estereótipos criados pela imprensa ocidental". Aqui há uma lógica totalmente diferente de compreender o mundo, em especial no tocante à família, ao papel dos indivíduos dentro da família e à questão da honra. A "família extendida" (ou seja, não só pais e irmãos, mas primos, tios, avós, sogros, etc) é o núcleo da sociedade paquistanesa. É por isso, por exemplo, que as casas aqui em Islamabade e em outras partes do país são tão gigantescas, com cinco ou seis quartos, quatro andares, mais de uma cozinha. As famílias vivem todas juntas: a mulher ao se casar passará a morar com a família do marido, com sogros e cunhados. É raríssimo que um filho (uma filha, então, nem se fala) passe a morar sozinho. Não tenho um número certo, mas acredito que cerca de 90% dos casamentos são arranjados e boa parte desses casamento envolve primos de primeiro grau, fato que é encarado com normalidade pelos paquistaneses.

Recentemente terminei a leitura de "Pakistan - A Hard Country", de autoria de Anatol Lieven, que traça um panorama da história do Paquistão e dos povos que aqui estão. Recomendo muito e acredito que seja possível achar com facilidade esse livro no Brasil. Para mim, foi muito interessante aprofundar as minhas percepções e começar a entender melhor como o país funciona. Comecei a compreender porque, por exemplo, a corrupção é tão disseminada por aqui: como a família é o centro da sociedade, é mais importante defender a honra dos familiares do que obedecer a leis, especialmente se essas leis tenham sido importadas a partir do colonialismo britânico, sem levar em consideração as tradições locais. Assim, nada mais natural do que mentir para as autoridades policiais para salvar a pele do irmão ou distribuir cargos entre os parentes quando se chega ao topo do poder. Ou ainda recorrer às jirgas (assembleias de anciãos) para definir uma disputa territorial que já ameaça a vida da família. As decisões são rápidas e aceitas pelas duas partes envolvidas, mas podem levar a práticas odiosas, como aquela relativamente comum de entregar uma menina da família para outra família para reparar um crime cometido por um dos filhos homens.

Para Lieven, o Paquistão não é um Estado falido como aqueles da Somália ou do Congo (e quem visita Islamabade certamente concordará com essa conclusão). Paradoxalmente, no entanto, o conservadorismo da população impede a modernização do país ao mesmo tempo em que serve de obstáculo para que haja uma revolução radical como a sonhada pelo Talibã paquistanês, por exemplo. As estruturas que geram pobreza ao mesmo tempo impedem que boa parte da população seja ainda mais pobre e miserável. A prática da caridade é um dos pilares do Islamismo, e isso é, de fato, seguido pela maioria da população.

Enfim, um pouquinho de Paquistão para fechar o ano! E agora rumo à terra dos Czares e bolcheviques!